Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 18, 2011

CADERNINHO NERVOSO

Quero compartilhar com os leitores, neste Natal, este belo texto de autoria do médico otorrinolaringologista Sebastião Diógenes, publicado no livro Passeata Literária, das Edições Sobrames-CE.

- Por que está chorando, Caderninho?

- Foi Lia, aquela sua sobrinha dos olhinhos graúdos.

- O que foi que ela fez de tão grave?

- Fez uma visita às minhas indefesas páginas.

- O que há de mal numa visita de cortesia, Caderninho?

- Não foi visita de cortesia, coisa nenhuma! Foi uma invasão de propriedade.

- Deixe de ser dramático! Conte-me o que realmente aconteceu.

- Ela me fez bolas e bolinhas de caneta. E com força. Um verdadeiro estrago.

- Posso fazer uma perícia e suas páginas?

- E deve. Você também tem culpa no cartório.

- Culpa! Por quê?

- Deixou-me largado na mesa redonda.

- A mesa redonda é o seu lugar.

- Certo. Mas correndo o risco!

- Correndo risco, por quê?

- Porque vivo cercado de lápis e canetas por todos os lados. Fico à mercê das crianças, se juízo têm, falta-lhes a consideração.

- A mesa também é o lugar dos lápis e das canetas. Vocês formam uma família e se completam.

- Tudo bem, a mesa redonda é o nosso lar. Mas você viu a Lia entrar no gabinete, não viu?

- Vi, e daí?

- Quer bem dizer que não conhece a pecinha?

- E quem pode com Lia?

- Se não pode com Lia, que me afastasse dos apuros.

- Foi um descuido! Ademais, você não é nenhum olho de santo.

- Negligência, seria o termo mais apropriado. Mesmo não sendo olho de santo, conforme a sua presunção, tenho o direito aos mínimos cuidados.

- Desculpe-me. Agora, deixe de derramar lágrimas. Você vai acabar molhando as folhas, o que será muito pior.

-Ela não deveria ter feito bolas e bolinhas nas minhas estimadas páginas.

- Deixe por menos. Ela é pequena, só tem 3 anos de idade.

- Eu também sou pequeno. No reino dos cadernos não passo de uma caderneta de 48 folhas, algumas delas supliciadas pela pesada mãozinha de Lia.

- Um dia você vai ter orgulho da visita de Lia em suas honradas páginas.

- Orgulho! Como pode um Caderninho vitimado de bolas e bolinhas vir a ter orgulho da sua predadora?

- Quem sabe! Lia poderá ser uma famosa artista plástica e você terá tido o privilégio de receber os seus primeiros traços.

- Que nada! Lia vai ser odontóloga como a mãe. Ou médica como a vovó Tânia. Ou vendedora de Fiat como o pai, que dá muito mais…!

- Que seja! Não haverá de ser menor o orgulho, Caderninho zangado, de um dia ter recebido as garatujas de Lia.

Conversa…! E eu, nesses tratos, o que me aguarda?

- O sucesso, quando Lia crescer.

- Quer dizer, esperando no prejuízo!

- Que prejuízo, que nada, Caderninho. Você até parece que não tem sentimento, logo hoje. o dia do Natal, deste ano da graça de dois mil e dez!

- Encantado, senhor…! Ó Lia, venha-me fazer bolas e bolinhas. Caderninho ama você!

25.12.2010

 


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