Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 24, 2012

RABISCOS NA CALÇADA

 

Uma calçada sendo reformada ou construída. Mais tarde, algumas crianças, fingindo total desinteresse, e portando um prego estrategicamente escondido no bolso da calça, suspensório a sustentá-la, passavam pelo local. Esse ritual fazia parte de um processo que estaria por ser desencadeado. O local era devidamente observado, e a turminha já combinava hora e local para deixar suas pequenas marcas em baixo relevo.

Com toda certeza, em muitas cidades do interior do Brasil existem resquícios de um arcaico e tortuoso acervo arqueológico. Inscrições rupestres de uma geração ansiosa por um futuro que vislumbrava inteiro e salutar.

Muitas calçadas guardam, em algumas rebordas, junto a um meio-fio de antigamente, recordações de uma infância alegre, solta e feliz. Rabiscos pequeninos, escondidos, feitos com um prego ou um palito, porém com endereços estrategicamente preestabelecidos, apesar de todos os disfarces. Homenagem silente a uma vogal ou consoante que, perto ou distante, fazia-se merecedora de uma homenagem ao nível do solo, sob os auspícios da ousadia.

Alguns meninos, com o espírito mais escancarado, deixavam um pequeno coração com as iniciais ao lado de uma flecha que o traspassava da aurícula direita ao ventrículo esquerdo. Eram duas letrinhas tortuosas, que justificavam uma satisfação de um SMS direto – carimbo de cimento – junto à sarjeta, de difícil localização, e conferidas no dia seguinte.

Isto posto, esqueçamos o inaudita altera pars (sem ouvir a outra parte) dos juristas – visto não haver necessidade. Porém ninguém estranhe se adultos sérios, quando em visita à cidade natal, derem uma conferida, disfarçadamente, tipo sem-querer-querendo, em estratégicas calçadas, em buscas de inscrições antigas – verdadeiras Escritas Cuneiformes –, simples rabiscos que conferiram paz ou incerteza a pequenos corações ansiosos por uma identidade.

Na Capadócia – interior da Turquia – são vendidas réplicas de pedras com simulação de escrita cuneiforme. Ao vê-las, logo me vieram à mente antigas inscrições feitas em calçadas da minha infância, ostentando rabiscos em nada diferentes desses, e um frio gostoso me  fluiu pelas veias, no rumo do coração.

Interior do Brasil, década de 1940/1950. Pixadores de meios-fios ou precursores da Calçada da Fama?

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A escrita cuneiforme foi desenvolvida pelos sumérios, sendo feita com objetos em formato de cunha. Os primeiros pictogramas – por volta de 3500 a.C – foram gravados em tabuletas de argila, com um estilete feito de cana.            Wikipédia.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 17, 2012

A FRASE

Perônio estava feliz.  Terminara um curso de churrasqueiro financiado pelo patrão, e ansiava por mostrar suas habilidades. Fatalmente, seria um churrasqueiro respeitado. Quando com os amigos, gostava de repetir, com ênfase, a máxima do Prof. Laércio Segundo de Oliveira, que diz: todo churrasqueiro tem direito a três coisas – ser chato, ter um ajudante e uma toalhinha para colocar no ombro. Somente a segunda ele ainda não realizara.

Naquela manhã de domingo, seu patrão  chamou-o e disse: vá à banca de revistas e compre uma Folha de São Paulo. Outra coisa: Odino está lhe procurando. Perônio recebeu o dinheiro e saiu todo satisfeito. Sabia que logo mais estaria se dedicando ao churrasco da família, e isso o enchia de orgulho.

Retornando da banca de revista, todo serelepe, Perônio interferiu na conversa da família Larbos com seus convidados, afirmando com euforia: Dr. Paulo, eu fui comprar um jornal, mas tinha uma placa avisando que o preço ia aumentar a partir de amanhã, e eu comprei logo três. O patrão riu, recebeu os jornais e continuou o comentário que estava fazendo.

Odino, o filho adolescente do Dr. Paulo, participava, com um grupo de amigos,  da elaboração de uma proposta sobre a temática a ser sugerida para o encontro cultural do seu colégio. Escreveu a frase  em um papel e deixou sobre a bancada da sala de estudo.

Com sua mania de limpeza, Perônio jogou o papel fora, e Odino esforçava-se na procura do papel salvador, pois tinha que encontrar os participantes do grupo e entregar sua colaboração ao grupo, para que fosse escolhida a melhor sugestão. Odino suspeitava de que Perônio havia jogado fora o papel com a frase de impacto que escrevera, e gritou:

- Perônio! Onde você meteu um pedaço de papel que estava aqui sobre a bancada?

- Ah, Odino, eu joguei fora! – respondeu Perônio.

- Você lembra o que estava escrito?

- Lembrar, eu não lembro, mas sei que dizia mais ou menos assim: Quem fala demais dá bom dia a cavalo.

O adolescente, apressado, saiu de casa chateado, mas lembrou que deixara a frase escrita em seu laptop.

Na casa do amigo, Odino descobriu que Perônio estava certo. A frase era QUEM EXAGERA O ARGUMENTO PREJUDICA A CAUSA, de Engel.

Perônio é um sábio, imaginou Odino.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 11, 2012

ESTRATÉGIA X BRUTALIDADE

A população precisava de sua intrépida presença, como delegado de polícia. A coletividade não podia continuar acuada, face às ameaças arrogantes dos facínoras da região e dos que, de cada vez mais longe, vinham desafiar a ordem e o respeito da vila. Era preciso frear o grupo, antes que o pior viesse a acontecer.

Quatro elementos deixavam a população em desespero, incapaz de seguir as rotinas de seus labores. Era um sofrimento geral.

Ainda não convencido por inteiro de que deveria assumir tamanha responsabilidade, com poucos suportes, além da coragem e da bravura sua e de seus comandados, o delegado disse o esperado “sim” e partiu para o que desse e viesse. A ordem e a justiça seriam mantidas, a qualquer custo. Fosse quem fosse, teria de cumprir as leis e a ordem.

Fama é pouco, braveza tem de ser testada. E quanto mais depressa se testa uma nova autoridade, mais depressa ela é desmoralizada e o campo fica aberto para as diferentes leis e ordem reinarem, a serviço dos mais fortes. Assim pensavam os “foras da lei”.

Um dos elementos entrou na cidade fortemente armado, o que já era um desafio. Carecia ganhar a primeira batalha com o delegado da vila. Escolheu o dia e o lugar da feira. Que delegado, naquela época, teria coragem de colocar o povo entre dois fogos? O fora da lei queria ganhar, economizar munição e desacatar o delegado, em frente dos habitantes da vila e das redondezas.

O delegado ponderou riscos e forças. Não apareceu na feira e as provocações do meliante não foram confrontadas. Caíram no vazio. Sua cruzada não frutificou. Fazer o que na feira, se não podia trocar tiros com os pretensiosos “homens da lei”? Deu um grito de guerra e saiu o bando levantando poeira, no rastro dos cavalos. E houve louvores a todos os santos, pelos que se viram livres de tão sinistra companhia.

Onde estava a bravura do Delegado de Polícia? O júbilo da liberação do perito logo deu lugar à maledicência e à galhofa. “Cadê a brabeza do homem, que nem aparecer apareceu?”

Não demorou muito e um jegue esbaforido trazia um caboclo e sua notícia: o bando do meliante, mal acabara de gargalhar sua estrondosa vitória e um tiro partiu detrás de umas pedras enormes que ladeavam a estrada. Apanhados de surpresa, os forasteiros ainda tentaram reação. Mas fugiram quase todos, sob a saraivada de tiros do delegado e seus homens.

Foi um reboliço na feira. O delegado aumentou sua fama. O bicho era homem! Enfrentou e matou o temido fora da lei.

Roteiro de um bang-bang americano? Não.

Local: Serra do Teixeira, Paraíba.

Ano: 1876

Delegado: Liberato Dantas

Quatro elementos “foras da lei”: Manoel Rodrigues, Cirino, João e Juvino Guabiraba, procedentes de Pajeús de Flores.

Estratégia e seus princípios – escolha do local da batalha, concentração de forças (diretas e indiretas), e  ataque sobrepôs-se a brutalidade e seus sinônimos: rudeza, grosseria, violência, selvageria.

Baseado no livro Uma Família na Serra do Teixeira, de Fábio Lafaiete Dantas e Maria Leda de Resende Dantas, Editora Liber, Recife-2008, págs. 150/151.

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 4, 2012

SESSENTA MINUTOS DE UMA VIDA – II

 

Levantou-se às onze horas. Veio pelo corredor, agora um homem mais magro, com aquele  olhar sem brilho e sem ponto futuro, num sem destino quase infinito. A cuidadora dera-lhe um banho, trocara-lhe as fraldas, penteara seus cabelos e vestira-lhe uma roupa.

Do corredor, vislumbrou algumas pessoas. Um ar de riso quase automático, sem expressão, tomou conta de seu rosto magro. Viu, próximo de si, uma pessoa que não conseguia identificar. Era seu genro. Olhou fixo, fez novo ar de riso e passou em direção à mesa da sala. Sentou com o olhar voltado para baixo. Olhou o café que lhe era servido, respondeu a uma pergunta da cuidadora. Comeu mamão e iogurte, porém de olho no inhame, que pediu em seguida. Comeu o inhame de olho em umas torradas, ameaçando alcançá-las com a mão. Ele mesmo pôs a comida na boca, mas demorou, em sua  mastigação lenta, com o olhar voltado para as guloseimas expostas sobre a mesa.

Manteve o olhar fixo, no rumo do nada, as mãos sobre a mesa. Movimentos lentos; apenas mastigava, e demorava a engolir. Pediu mais inhame, e exigiu mais torrada. Ele está assim – fala a cuidadora -, esquece que comeu, e quer repetir a comilança.

Ao seu lado, o filho mais velho, sua nora e sua neta chamaram por seu nome. Riu um riso desinteressado. Não reconheceu os seus familiares. Virou a cabeça para a mesa, e perguntou se não vão lhe trazer o café. O filho, brincando, perguntou de que cor era a bolinha que lhe era mostrada, e a pôs em sua mão. É azul, respondeu. Acertou, e todos riram. Sentiu um pouco de náusea, um mal estar nos gorgomilos, sintomas de um antigamente já esquecido. Resistiu, e continuou à mesa, apesar do refluxo gastroesofágico.

O filho pôs  um boné em sua cabeça; ele riu, e permitiu passivamente aquela brincadeira. Fez nova ameaça de se levantar, mas continuou sentado. Na sala, risos grosseiros e conversa alta, mas ele continuava com seu olhar perdido, fixo em um horizonte curto. Meio metro, talvez.

Não emitiu uma só palavra, de forma espontânea. Quando provocado, respondia com monossílabos e retornava ao seu silêncio. Continuou segurando a bolinha azul, agora rolando-a sobre a mesa, na direção de sua filha, que a devolvia de forma carinhosa. Ele riu e abaixou o olhar. Levantou-se com dificuldade, e partiu lentamente no rumo do sofá. Sentou-se de forma automática, as feições sem expressão, os olhos fixos na televisão desligada. Perguntado, indicou que o aparelho fosse ligado.

Mas insistiu em seu olhar perdido, agora na direção da tv. Uma hora havia se passado.

No móvel da tv, na prateleira de baixo, um manual sobre a doença de Alzheimer.

Evaldo Alves de Oliveira é médico pediatra, com formação em Homeopatia. Sócio-

Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 28, 2012

UMA ESTRANHA MANHÃ DE DOMINGO

 

O sol oferecia-se por inteiro naquela manhã de domingo. No quintal, a grama verdinha sentia-se ofendida com a presença da sujeira deixada pelos dois cachorros da casa – Ressaca e Beiçola. Os dois, nesse momento, manhosamente se esgueiravam atrás de um banco, como que adivinhando o pensamento da grama.

Fui à cozinha, preparei o café, que me pareceu com gosto de ontem. Calcei os tênis, tirei a esquecida bicicleta do quartinho do quintal e saí sem qualquer compromisso, fosse com a bússola ou com o relógio. Vaguei pelo plano piloto, talvez em busca de uma padaria para satisfazer minha necessidade de cafeína.

Em frente a um prédio, três homens discutiam  de forma acalorada. Um deles, musculoso, tipo bombadão, apontava com seu indicador de baqueta de surdo para uma plaqueta, e bradava:

- Foram três tiros no coração! Todos no coração!

Um pouco assustado, passei pela padaria sem olhar, e continuei o meu roteiro quase inédito, ainda com o codinome sem-café e sem relógio. Subia pela rua, quando percebi um grupo de cinco pessoas, com ar austero, tentando encobrir o foco da conversa com os corpos. Deu para ouvir o que o rapaz de cabelo à moicano perguntou com ênfase de lutador de MMC:

- E esse primeiro, o que é?

- É carne de sol – respondeu com desdém a moça de piercing no nariz.

- Claro que não é – respondeu um rapaz de bermuda quadriculada. É carne moída ou bife à rolê.

Ninguém concordou. Então, era carne de sol, supus.

- E esse segundo? – virou a página.

- Ah, esse eu tenho certeza. É galinha ao molho pardo.

- Quero ver se vocês acertam o terceiro. E apontava para um papel amassado que trazia na mão.

- É feijoada, mas com feijão branco.

Todos concordaram. Era feijoada, mas com feijão branco, pela expressão do grupo. Tornaram a olhar em volta, para terem a certeza do isolamento.

Seriam aqueles pratos uma senha? O primeiro foi carne de sol; o segundo, galinha ao molho pardo, e o terceiro foi feijoada, porém com feijão branco. Retornei intrigado para casa – esforçando-me para guardar os detalhes da sequência -, ainda como sem-café, mas agora ligado no relógio e na bússola. Era quase meio dia.

Após o banho, e ainda confuso, tentava decifrar as palavras e os fatos observados. Talvez um crime ligado a algum restaurante, imaginei. Três tiros no coração. Referência a alguns pratos da nossa culinária. Pensativo e curioso, liguei para um amigo, delegado de polícia.

Meu amigo riu, riu e riu. Do outro lado da linha, eu, calado e desconfiado. Ainda com restos de riso na boca, ele me clareou a mente, turva pelo imbróglio matinal. E explicou calmamente: o grupo que estava discutindo sobre os tiros no coração estava participando de uma prova para trabalhar em empresa da área de vigilância e segurança. O outro, apenas conferia as respostas da prova de um concurso que haviam feito para trabalhar como cozinheiro.

Afinal – pensei aliviado -, o que são três tiros no coração de uma figura de papel? E o que tenho eu a ver com carne moída, galinha ao molho pardo ou feijoada?

Antes de almoçar, passei discretamente pela cozinha para conferir os pratos. Que alívio.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 21, 2012

MEU FILHO É UM CACHORRO

Quando foi adotado por nós – todos em casa foram favoráveis – ele chorava a toda hora, em especial à noite, quando a solidão falava mais de perto, e o assobio da cruviana lhe raspava as narinas semi-cobertas. Chorava, choramingava, e quantas vezes fui ao seu berço levar carinho ou reavaliar sua necessidade de alimentação. Pequenino, sempre se dirigia em minha direção, em detrimento de outros que no local estivessem.

O seu choro era facilmente decifrado por mim. Eu sabia claramente quando estava com fome, quando sentia frio, quando estava envolto em suas excreções, sólidas ou líquidas. Enfim, eu cuidava do pequenino com zelo e dedicação.

A preferência por mim e a satisfação por minha presença – fosse ao seu lado ou à distância, no alcance da visão – eram percebidas por todos em casa, às vezes provocando um certo desconforto. Sua inquieta alegria – vislumbrada no brilho de seus olhos – ao perceber minha presença enchia-me de satisfação. Quando ocorria de eu viajar, todos percebiam seu acabrunhamento e irritabilidade. Sumia o apetite e chegavam a indisposição e a anorexia.

Desse modo, eu e o pequenino fomos nos envolvendo em um forte envolvimento afetivo, para ciumeira de alguns membros da família.

Ontem, chegando em casa, à noitinha, uma surpresa. Ele estava na área de serviço, banho tomado, linguinha de fora, dentinhos à mostra, com aquela carinha de safado de todos os dias. Ao me ver, correu para minhas pernas e eu tive a nítida impressão de ouvir, com sua voz rouca de barítono aposentado: Papai…

Juro que tive essa impressão, e uma sensação paternal invadiu minh’alma, quase no limite do suportável.

Olhando para o pequeno buldogue campeiro, vieram-me à garganta duas palavras, abafadas pela autocensura: Meu filho…

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 17, 2012

DE UM NADA, FESTA E RECORDAÇÕES DA INFÂNCIA

Apenas alguns dias de férias, na última semana de 2011, bastaram para um reencontro com as alegrias da minha infância. Fui convidado para visitar um amigo , que mora em um pequeno sítio na entrada de Monte Alegre, pertinho de Parnamirim, parede e meia com Natal.

Logo na entrada do sítio Asa Branca, seguimos por uma estradinha de terra ladeada de cajueiros exibidos, com seus frutos vermelhos querendo se sobressair sobre os amarelos, ao lado, como se fosse a Diana do cordão encarnado a provocar o cordão azul. Os passarinhos, indiferentes à disputa, preferiam os dois. O cheiro os guiava, não a cor.

Conheci frutas exóticas, como a lichia, que se esforçava em sua peleja por espaço contra as frutinhas do campo. As mangas, todas lindas, fossem amarelas, verdes ou vermelhas, banhavam-se desnudas ao sol abrasador de dezembro. Sem falar nos cocos, nas pinhas e nas mangabas, que nos olhavam de longe.

Aqui e ali, calangos se exibiam sem temor, recompensando, com seu bailado, o respeito dos moradores. Porém de olho em dois enormes gansos que os espreitavam de soslaio. Conheci um berçário com uma infinidade de filhotes de palmeiras sendo banhadas por minichuveiros que formavam minúsculos arco-íris quase no nível do chão que, molhado, exalava frescor de meninice.

No final da tarde, com o olho da noite a nos espreitar, percebi, sobre uma lona, um monte de castanhas de caju. Lembrei-me de que, criança, jogava castanhas na calçada da Rua do Meio, atrás da minha casa, ao lado do sobradinho dos padres. As crianças  das famílias abastadas não conheciam essa brincadeira.

O caseiro, ao perceber nossa aproximação – e mais uma vez sendo gentil -, ofereceu-se para assar algumas castanhas para o visitante, que imagino julgar ilustre. Logo o fogo tomava conta dos gravetos, na areia, soprando suas labaredas fugidias. Um tacho abarrotado de castanhas foi colocado sobre o fogo e o espetáculo teve início. As castanhas bailavam e explodiam, empesteando o ar com o cheiro de seu óleo fumegante. Vira, revira, pula para um lado, esquiva-se do outro, cuidado com os olhos, o fogo a nos amedrontar com seu bafo ameaçador. Meu filho, Lucas, fotógrafo profissional em São Paulo, deslumbrava-se com aquele ritual stonehengeano, e os disparos da máquina se sucediam.

Ao final, o melhor. Quebrar as castanhas com uma pedra, e comê-las. Na verdade, não as comemos; degustamo-las sem pudor, quase queimando a boca. O puro gosto da natureza, com a cinza quente a nos enegrecer mãos e unhas. Gormets do interior, pobres comedores de castanhas caipiras. Crianças de cabelos gris.

Foi aí que entendi – já imaginando um próximo convite – os belos versos de Fagner, que sentenciam:  de uma coisa fique certa; a porta vai estar sempre aberta; o meu olhar vai dar uma festa na hora que você chegar.

Pura pretensão, a minha.

Uma autêntica festa no interior… do meu coração.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 3, 2012

MONTANHA E SUA DESINVASÃO

 

Era início do mês de julho. e Montanha partiu cedo de Brasília com a família. Tudo a postos, conferiu cada detalhe. Hora de partir. Fizera uma revisão em seu Uno. Tudo nos conforme, como gostava de dizer. Conferiu os passageiros. Ele, a mulher, o filho, o sogro e a sogra. Uma rápida oração no interior do carro, e a madrugada quase manhã agasalhou carro e ocupantes com serenidade, bafejando os últimos sopros que restaram de uma noite/madrugada fria.

Guarapari os aguardava. Montanha, funcionário público, adquirira um apartamento em um condomínio, bem próximo à praia, que era utilizado duas vezes ao ano. As fotos, exibidas no local de trabalho, comprovavam as belezas do local.

Viagem tranquila. Chegaram à noite, e se dirigiram ao apartamento, pois os corpos, no limite da exaustão, imploravam por um banho e um repouso. Ao destrancar a porta, uma surpresa: havia uma família morando ali. Pai, mãe e dois filhos. Todos sentados no sofá, vendo televisão. Montanha não acreditava no que via. Propôs a desocupação do imóvel. Nem pensar. Depois de um acalorado bate- boca, Montanha resolveu procurar um hotel onde pudessem se alojar.

Mais tarde, já recuperado, após o banho, Montanha foi a uma mercearia em frente  fazer umas compras básicas para a família, e contou o seu drama para o comerciante. Este, demonstrando calma, chamou dois homens que bebiam pinga na extremidade do balcão e pediu para o funcionário público repetir o acontecido.

- Nós dois – disseram Pesão e Chibanca – prometemos desocupar seu apartamento em três dias, sem qualquer violência. desde que nos pague quinhentos reais. Cem agora e o restante quando da entrega do imóvel desocupado.

Montanha pensou um pouco, fez um cálculo do dinheiro que trazia para as férias, certificou-se de que os dois não usariam de violência, e concordou. Abriu a carteira e entregou os cem reais junto com as chaves do apartamento.

Os dois homens compraram uma garrafa de pinga, alguns pães, umas fatias de presunto e se despediram. Cambaleavam um pouco, mas nada que chamasse a atenção. Chegaram ao apartamento, abriram a porta e disseram que o proprietário havia autorizado sua permanência ali por algum tempo. O ocupante ilegal ameaçou chamar a polícia, mas desistiu. Ao final,os dois estavam alojados em um dos quartos, e recomeçaram a sua bebedeira habitual, falando alto e cantando músicas horrorosas, além de desafinadas.

No dia seguinte, à noite, Montanha recebia as chaves do apartamento de volta. Os invasores haviam se retirado.

Tudo resolvido. O problema foi suportar a inhaca e o cheiro de pinga no segundo quarto.

Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 18, 2011

CADERNINHO NERVOSO

Quero compartilhar com os leitores, neste Natal, este belo texto de autoria do médico otorrinolaringologista Sebastião Diógenes, publicado no livro Passeata Literária, das Edições Sobrames-CE.

- Por que está chorando, Caderninho?

- Foi Lia, aquela sua sobrinha dos olhinhos graúdos.

- O que foi que ela fez de tão grave?

- Fez uma visita às minhas indefesas páginas.

- O que há de mal numa visita de cortesia, Caderninho?

- Não foi visita de cortesia, coisa nenhuma! Foi uma invasão de propriedade.

- Deixe de ser dramático! Conte-me o que realmente aconteceu.

- Ela me fez bolas e bolinhas de caneta. E com força. Um verdadeiro estrago.

- Posso fazer uma perícia e suas páginas?

- E deve. Você também tem culpa no cartório.

- Culpa! Por quê?

- Deixou-me largado na mesa redonda.

- A mesa redonda é o seu lugar.

- Certo. Mas correndo o risco!

- Correndo risco, por quê?

- Porque vivo cercado de lápis e canetas por todos os lados. Fico à mercê das crianças, se juízo têm, falta-lhes a consideração.

- A mesa também é o lugar dos lápis e das canetas. Vocês formam uma família e se completam.

- Tudo bem, a mesa redonda é o nosso lar. Mas você viu a Lia entrar no gabinete, não viu?

- Vi, e daí?

- Quer bem dizer que não conhece a pecinha?

- E quem pode com Lia?

- Se não pode com Lia, que me afastasse dos apuros.

- Foi um descuido! Ademais, você não é nenhum olho de santo.

- Negligência, seria o termo mais apropriado. Mesmo não sendo olho de santo, conforme a sua presunção, tenho o direito aos mínimos cuidados.

- Desculpe-me. Agora, deixe de derramar lágrimas. Você vai acabar molhando as folhas, o que será muito pior.

-Ela não deveria ter feito bolas e bolinhas nas minhas estimadas páginas.

- Deixe por menos. Ela é pequena, só tem 3 anos de idade.

- Eu também sou pequeno. No reino dos cadernos não passo de uma caderneta de 48 folhas, algumas delas supliciadas pela pesada mãozinha de Lia.

- Um dia você vai ter orgulho da visita de Lia em suas honradas páginas.

- Orgulho! Como pode um Caderninho vitimado de bolas e bolinhas vir a ter orgulho da sua predadora?

- Quem sabe! Lia poderá ser uma famosa artista plástica e você terá tido o privilégio de receber os seus primeiros traços.

- Que nada! Lia vai ser odontóloga como a mãe. Ou médica como a vovó Tânia. Ou vendedora de Fiat como o pai, que dá muito mais…!

- Que seja! Não haverá de ser menor o orgulho, Caderninho zangado, de um dia ter recebido as garatujas de Lia.

Conversa…! E eu, nesses tratos, o que me aguarda?

- O sucesso, quando Lia crescer.

- Quer dizer, esperando no prejuízo!

- Que prejuízo, que nada, Caderninho. Você até parece que não tem sentimento, logo hoje. o dia do Natal, deste ano da graça de dois mil e dez!

- Encantado, senhor…! Ó Lia, venha-me fazer bolas e bolinhas. Caderninho ama você!

25.12.2010

 

Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 18, 2011

PIRULITO, DOÇURA DA INFÂNCIA, PREOCUPAÇÕES DE AGORA

Areia Branca-RN, cidade da minha infância, 1958. Rua do Meio. Consultório do Dr. Vicente de Paula Gurgel Dutra. Elegante, como de costume, o Dr. Vicente dava os últimos retoques em uma peça de ouro, fundida por ele mesmo. Caprichava nos últimos detalhes, e admirava a maravilha alquímica do ouro surgindo na ponta de seus dedos.

Naquele tempo os dentistas elaboravam pessoalmente suas peças, em pequenas oficinas. Não havia a figura do protético. Neste caso, a pequena oficina funcionava em uma saleta, junto ao consultório, na Rua do Meio, vizinho à casa de Antonio Calazans. Dr. Vicente fabricava suas peças odontológicas, fossem simples obturações, coroas ou próteses mais complexas (pererecas ou dentaduras completas, superior e inferior).

Como eu dizia, era final de uma tarde quente, e o dentista, com seu charme habitual, admirava, junto à janela, um pequeno bloco de ouro incrustado no molde de gesso que acabara de ser retirado do massarico, ainda sem os detalhes do que viria a ser: um pequeno e bonito bloco a preencher o espaço de um dente e devolver o sorriso que já fora belo.

Nesse momento, passava um menino com um taboleiro de pirulito nas costas, a gritar a plenos pulmões as delícias do seu produto – OLHA O PIRULITO, ENROLADO NUM PAPEL E ENFIADO NUM PALITO!!! Ao passar junto à janela do dentista, e sem perceber que havia alguém próximo, deu um berro seco e estridente bem no ouvido do concentrado odontólogo:

- OLHA O PIRULITO!!!

Dr. Vicente, em um movimento de defesa, atirou longe obloco de ouro, pôs a cabeça fora da janela e bradou, tentando se refazer do susto:

- Ah, seu filho de uma égua…

E o garoto saiu em disparada, às gargalhadas, rodopiando e pulando, como se jogasse amarelinha, segurando o taboleiro com uma das mãos, lembrando, sem o saber, Geny Kelly em Cantando na Chuva. Na outra mão, a última das três mariolas que acabara de trocar por alguns pirulitos.

Brasil, novembro de 2011. A Sociedade Brasileira de Pediatria comunica e denuncia: pirulitos são vendidos e comprados pela Internet, nos Estados Unidos.

Seria uma maravilha se não estivessem contaminados com o vírus da catapora. Os pais compram os doces lambidos por pessoas doentes e oferecem a seus filhos para que estes, saudáveis, sejam infectados pelo vírus da varicela, ainda pequenos, quando os sintomas da doença seriam supostamente mais brandos. Isso acontece para evitar o pagamento da vacinação.

Em Areia Branca, ontem: a doçura de um menino no esforço pela vida, oferecendo pirulitos multicoloridos ruas afora, aos gritos, bailando sorridente. E comendo mariola.

Nos Estados Unidos, hoje: a venda de pirulitos com saliva contaminada pelo vírus da catapora – seria somente da catapora? -, via Inernet. E com as cores da estupidez.

 

 

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